OOPS. Your Flash player is missing or outdated.Click here to update your player so you can see this content.
Você está em: Home
Texto - Como ajudar meu filho a gostar de Matemática ?

Como ajudar meu filho a gostar de Matemática ?

Quando pensamos em contribuir com a educação matemática de nossos filhos, muitas vezes pensamos em treinar as tabuadas, dar muitas “continhas”, sempre perguntar pelos nomes das figuras geométricas, entre outras coisas. Entretanto, tais atitudes pouco contribuem para fazer de nossos filhos bons alunos nessa disciplina, e mais, menos ainda contribuí para a realização no
campo de conhecimento matemático.

Ter bom domínio em Matemática implica possuir habilidades que vão além de saber recitar os números até 1.000, identificar os algarismos ou fazer continhas. Tais habilidades têm papel fundamental na alfabetização matemática de nossas crianças, mas não bastam para desenvolver todo o potencial matemático que todo educador deseja. Pois então cabe uma questão: o que fazer
para ajudar meu filho a ser FELIZ nas matemáticas?

Para responder tal pergunta, cumpre-nos dizer que a capacidade para realizar atividade matemática requer da criança, sobretudo, o desenvolvimento de estruturas de pensamento que não se constituem meramente a partir do ensino de conceitos. Portanto, ajudar nossa criança a ter um bom relacionamento com a matemática significa favorecer o desenvolvimento de estruturas do pensamento operatório.

O desenvolvimento das estruturas do pensamento matemático não se realiza exclusivamente nas aulas de Matemática, por meio dos exercícios do livro didático e com situações produzidas e propostas pelo professor. O fazer matemática não é exclusivo ao contexto didático-pedagógico da escola. O mundo extra-escolar pode contribuir para que uma criança seja uma excelente
matemática. Podemos até ser mais extremistas: as experiências matemáticas realizadas fora da escola podem ser decisivas no desenvolvimento matemático da criança e do jovem. Na mesma lógica dizemos que a ausência de atividades matemáticas fora do contexto escolar pode, de certa forma, decidir sobre o processo de construção de conhecimento matemático pela criança.

Não querendo transferir a responsabilidade de ensinar Matemática da escola para a família, buscaremos aqui somente esclarecer sobre a importância do contexto familiar no desenvolvimento do ser matemático que é a nossa criança. A natureza das relações que os adultos têm com a criança influencia sobre a estruturação do pensamento infantil, o que vai repercutir no potencial do
pensar matemática da criança.

Se considerarmos que o pensamento matemático é estruturado e desenvolvido a partir das situações-problemas que a criança experiencia, sobretudo as situações de quantificações, comparações, de medidas, de operações, de probabilidade e de estimativa, devemos aceitar que a criança que tem um ambiente familiar que constantemente lhe oferece tais situações desenvolverá mais facilmente as habilidades matemáticas.

Fica em aberto ainda a questão fundamental: o que nós, pais, podemos fazer para uma participação efetiva no desenvolvimento matemático dos filhos. Equivocadamente, muitos pais buscam alternativas que são inadequadas e, por vezes, desastrosas como: treinar continhas, passar exercícios além dos estipulados pela escola, buscar professores particulares, entre outros, e se não chega mesmo a prejudicar, em muito pouco ajuda o desenvolvimento matemático da criança. Tomemos o cuidado para observar que não falamos aqui em treinar a criança para tirar nota nas provas. Falamos aqui do pleno desenvolvimento do espírito matemático da criança. Pior que tudo isso é inscrever o filho em métodos, ditos orientais, que se fundamentam em princípios
comportamentais e de treinamento.

A participação dos pais, como tem demonstrado as pesquisas no campo da educação matemática, e mais especificamente, da psicologia cognitiva, pode ser extremamente simples e poderá fazer a diferença para a criança entre “gostar e odiar a Matemática”. Essa participação se realiza por meio da oferta à criança de situações matemáticas que, por vezes, ao professor e à escola é difícil ou mesmo inviável propor.

Enfim, vamos apresentar alguns exemplos:

 · Contar nos dedos – utilização dos dedos para testemunhar as quantidades, realizar operações aritméticas, medir...
· Medir distâncias com passos – caminhando junto, medir distâncias, contar degraus, sempre em voz alta e compassada...
· Registrar a passagem do tempo com o movimento de uma sombra – registrar a passagem do tempo por meio do deslocamento da sombra da janela no chão do quarto ou da sala,colando uma fita, colocando uma graduação de hora em hora, de 30 em 30 minutos – explorando a ampulheta em jogos, ensinado a usar calendários...
· Participação em pequenas atividades domésticas – colocando a mesa (pondo pratos e talheres de acordo com o número de pessoas), fazendo juntos pequenas receitas, medindo os ingredientes e medindo o tempo e temperatura de cozimento...
· Participação nas compras – acompanhando a composição da lista de compras, lendo junto as indicações das embalagens, vendo o preço de cada produto e comparando, tentando prever o custo total da lista, “ajudando a pagar, fazendo composições aditivas das cédulas e conferindo o troco, participando do preenchimento do cheque...
· Manipular pequenas quantias de dinheiro – possibilitar a manipulação de pequenos valores, estimulando a realização de pequenas economias, realizar pequenos projetos, juntando “dinheirinho” para compras simbólicas, sempre contabilizando o que já conseguiu e o quanto ainda falta...
· Explorar jogos matemáticos, oferecer jogos de plataforma, de cartas e outros, onde ferramentas matemáticas, tais como números, operações, medidas, proporcionalidades, possibilidades, fazem parte da estrutura lúdica do jogo. Importante também, além da oferta, é a participação do pai no jogo, quando ele poderá colocar questões para que a criança realize uma reflexão sobre sua própria ação, que a criança justifique e explique suas ações, que se criem situações mais complexas. Brincar com jogos que necessitem da relação dos algarismos com as quantidades numéricas, comparação de quantidades...
· Explorar as matemáticas nos esportes – na análise das tabelas de campeonatos, comparando os pontos de cada equipe, na medição de tempos e espaços...
· Construir e participar de jogos culturais e construção de brinquedos – propondo e participando de jogos e brincadeiras tais como a amarelinha (que trabalha conceitos topológicos, ordem crescente e decrescente, os algarismos etc); bolinha de gude,
construção de pipa, carrinho de rolimã, realização de pequenas receitas, confecção de roupas, construção de acampamentos...
· Cantar músicas que possuem a sucessão numérica – ensinar e cantar canções junto com a criança cujas letras e compassos baseiam-se na contagem dos números, seja em ordem crescente ou decrescente, tais como Mariana conta.... Um elefante incomoda muita gente, Um elefante se pendurou numa teia de aranha...
· Quantificar e comparar conjuntos de objetos – como pequenas coleções, figurinhas, carros amarelos que passam, dias que faltam para o aniversário, pessoas da família, peças do vestuário...
· Realizar classificações – por meio das cores, das funções, por tamanho, tipo de material...
· Manipular instrumentos de medidas – uso da régua e trena, da balança, do relógio, do termômetro, do velocímetro...
· Explorar os números no endereço, no telefone, nas placas dos veículos, nos canais de TV ou rádio, nas programações, na numeração da roupa, nas placas de trânsito e no odômetro do carro...

Mais importante que desenvolver tais atividades com a criança, é compreender que a capacidade da criança para realizar atividade matemática está estritamente ligada ao pensamento autônomo que ela possui, ou seja, a sua capacidade de desenvolver e aplicar estratégias operatórias de resolução de situações de impasse e de desafio. É na busca de uma solução a situações reais que a criança desenvolverá esquemas mentais que serão decisivos no seu desenvolvimento matemático, e mais, na resolução dos problemas propostos pela escola.

Nesse sentido, pesquisas desenvolvidas com meninos e meninas de rua têm demonstrado que essas crianças têm estruturas e esquemas mentais poderosíssimos e surpreendentes. Tais esquemas revelam estruturas mentais matemáticas que traduzem por vezes a construção de complexos teoremas que são de difícil compreensão até por nós adultos. Portanto, o pensamento autônomo, base da construção do pensamento matemático, além de traduzir a autonomia cognitiva que a criança porta, ele está profundamente enraizado no desenvolvimento da autonomia moral da criança. A autonomia moral, condição primária para a
autonomia intelectual, diz respeito à condição que a criança tem de tomar decisões por si só, de agir de acordo com suas percepções acerca da situação, de liberdade de cometer erros, de criar e de testar as próprias hipóteses, de ser o primeiro e o principal responsável pelas suas descobertas, realizações e aprendizagens.

Assim, uma criança que vive e se desenvolve numa família onde prevalece a proteção exagerada, numa infância sem participação nas atividades domésticas, sem manipulação de valores – cédulas e moedas – sem jogos, sem a necessidade de explicar e de justificar suas ações e pensamentos; essa criança está fadada a, na escola, ter dificuldades na realização de atividades
matemáticas.

Essa posição teórica sobre a participação do adulto na constituição do ser matemático vem ao encontro do próprio significado da palavra matemática: matema = compreender e explicar e tica = arte e técnica, ou seja, a técnica de compreender e explicar a natureza e a relação do homem na sua exploração e conservação. Isso posto, contribuir com o desenvolvimento matemático do nosso filho requer que estejamos sempre a estimulá-lo no processo de compreensão e explicação, a todo momento, em todas as oportunidades, criando situações onde possa a criança chegar as suas próprias hipóteses, testá-las, revê-las, ou simplesmente, abandonando-as.

O mais importante é que, junto com os pais, a criança possa a cada dia, acreditar nela própria em criar e resolver situações matemáticas, cujas atividades permitirão fazer nascer a crença que todos nós podemos, de certa forma, ser matemáticos e descobrir o quanto ela pode ser lúdica. Cabe a cada pai a decisão da participação, ou não, do desenvolvimento da educação matemática de seus filhos. A forma de participação é simples, como lemos aqui, exigindo simplesmente tempo, disponibilidade de partilhar um espaço com o filho, e sobretudo, vontade de acolher a criança e o ser matemático que pulsa, que vive e se revela nela, questionando TUDO e a TODOS. Estar pronto para ouvir as explicações lógicas de nosso filho, sem querer impor a nossa como a mais importante ou aquela que é a certa, é a única forma que conhecemos de participação do pai nesse processo.

Favorecer o desenvolvimento da autonomia intelectual e moral da criança, esta é a melhor forma de favorecer o florescimento do ser matemático que pulsa no espírito de nosso filho. É preciso que compreendamos que a Matemática não é apenas uma ciência, mas é antes de tudo, uma atividade humana que deve participar da constituição do ser.

Autor: Prof. Dr Cristiano Alberto Muniz

 
< Anterior   Próximo >